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Presidente da Capes será 1ª brasileira a chefiar área de ciências da Unesco

Médica e primeira mulher reitora da UFRJ, Denise Pires de Carvalho deixa a Capes para assumir posto inédito do país na organização, fundada em 1945

Presidente da Capes será 1ª brasileira a chefiar área de ciências da Unesco
(crédito: Arquivo pessoal )

Por Redação Clube FM - Brasília

- Atualizado

Via Correio Braziliense

A presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Pires de Carvalho, 61 anos, será a primeira brasileira a ocupar a Diretoria-Geral Assistente para Ciências da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Um dos postos mais altos na estrutura da organização. Nenhum representante do Brasil ocupou cargo desse nível na Unesco, em nenhuma de suas áreas, desde a fundação da instituição, em 1945.

"Não só o Brasil assume o primeiro posto desse tipo na Unesco, em todas as áreas. Nunca um brasileiro assumiu esse tipo de cargo", afirmou Denise em entrevista ao Correio Braziliense nesta terça-feira (29/9). "Ser a primeira brasileira e ser uma mulher realmente me traz muita alegria. Fiquei muito honrada", completou.

Médica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1987 e doutora em ciências pela mesma instituição, Denise foi a primeira mulher reitora da UFRJ, entre 2019 e 2023. Atuou como secretária de Educação Superior do Ministério da Educação (MEC) em 2023 e, desde fevereiro de 2024, preside a Capes. Na Unesco, comandará a área que reúne as antigas diretorias de Ciências Humanas e Sociais e de Ciências Naturais, unificadas sob a gestão do atual diretor-geral.

A Unesco destacou a "experiência em liderança e gestão de pesquisa" da brasileira, com foco em equidade, igualdade de gênero e governança inclusiva.

Legados na Capes

Ao deixar a presidência da Capes, Denise apontou como principal legado os acordos transformativos que passaram a custear a publicação de artigos científicos brasileiros em acesso aberto. "A Capes, a partir de 2024, tem pago esses custos de publicação. Isso faz com que a ciência brasileira tenha, no momento, mais de 95% das publicações em acesso aberto nas principais revistas do mundo", afirmou. O Brasil, segundo a pesquisadora, está entre os 15 países que mais produzem ciência no mundo, e as universidades federais e estaduais respondem por mais de 90% dessa produção.

A presidente também destacou o Programa Aurora, lançado no início de 2026 para apoiar pesquisadoras que se tornam mães durante a carreira acadêmica. "É um programa para atender às mulheres orientadoras da pós-graduação que se tornam mães. Essas mulheres poderão supervisionar um pós-doutorado com financiamento da Capes", explicou. Segundo Denise, a medida busca corrigir a desigualdade de gênero no corpo docente, uma vez que muitas cientistas abandonam a carreira acadêmica ao se tornarem mães.

Outro destaque é o programa Capes Global.Edu, de internacionalização da pós-graduação, que criou 33 redes temáticas envolvendo 112 instituições em todos os estados da federação. As redes abordam temas como mudanças climáticas, agroeconomia, qualidade da água e inteligência artificial. "Uma instituição da região Sudeste precisou firmar parcerias com duas outras regiões do país — Norte, Nordeste ou Centro-Oeste — para ter uma rede aprovada", detalhou.

Prioridades na Unesco

Na nova função, Denise terá como pauta a transversalidade da ciência. A fusão das duas diretorias reflete, segundo ela, a necessidade de tratar temas como inteligência artificial e bioética de forma integrada entre as áreas de humanas e de ciências naturais. "A ciência é única e deve responder às questões da sociedade. Os cientistas não devem mais se encastelar. Devem estar o mais próximos possível da sociedade", defendeu.

A diretora-assistente pretende levar a experiência brasileira de cooperação Sul-Sul para a arena multilateral, com foco na transferência de conhecimento para países com populações vulnerabilizadas e na atenção a pequenos estados insulares ameaçados pela elevação do nível dos oceanos.

Denise apontou ainda a necessidade de vincular a discussão sobre transição energética à dimensão social. "À medida que passarmos a usar mais carros elétricos, novos empregos surgirão e os antigos serão perdidos. Não adianta caminhar no sentido de fazer a transição energética para uma energia mais limpa se não houver, ao mesmo tempo, a transição social ligada a ela", argumentou.

Mensagem aos jovens

Questionada sobre o recado que deixa aos jovens cientistas brasileiros, Denise pediu perseverança. "Quando comecei a minha carreira científica, as dificuldades eram muito maiores", disse. A pesquisadora lembrou que é a primeira pessoa da família a concluir o ensino superior e criticou os ciclos de desinvestimento em ciência no país. "Nenhum país do mundo se desenvolveu nem aumentou a renda média per capita sem investimento em ciência, tecnologia e inovação", afirmou.

Denise comparou a taxa de conclusão do ensino superior no Brasil, entre 23% e 25% da faixa etária correspondente, com a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que varia entre 47% e 50%. "Não vamos mudar as dificuldades econômicas se não tivermos mais jovens ingressando e concluindo a educação superior", concluiu

A seleção contou com o apoio do governo brasileiro por meio do Presidente da República e dos ministros da educação e relações exteriores. 

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