25 anos depois, como o 11 de Setembro ainda impacta o esporte
O dia em que o esporte perdeu a inocência: 25 anos depois dos atentados às Torres Gêmeas, em Nova York, saiba como os ataques mudaram para sempre a relação entre eventos, segurança e sociedade nos Estados Unidos e no mundo

Por Redação Clube FM - Brasília
- Atualizado
Por Marcos Paulo Lima — Enviado especial
Nova York — Durante algumas horas, o esporte simplesmente deixou de importar. Não havia clássico, recorde, contratação ou disputa por título capaz de competir com as imagens transmitidas ao vivo na manhã de 11 de setembro de 2001.
Às 8h46, um avião atingiu a Torre Norte do World Trade Center. Dezessete minutos depois, outra aeronave acertou a Torre Sul. Em pouco mais de uma hora, o mundo assistiria ao desabamento das Torres Gêmeas, ao ataque contra o Pentágono e à queda de um quarto avião na Pensilvânia. Quase 3 mil pessoas morreram.
Os Estados Unidos entraram em estado de choque e o esporte, acostumado à rotina aparentemente inviolável de jogos, viagens e transmissões, descobriu que também podia parar.
O 11 de setembro não interrompeu apenas campeonatos. Mudou a maneira como o mundo passou a organizar, proteger e assistir aos grandes eventos esportivos.
Vinte e cinco anos depois, o legado daquela manhã estava nas barreiras erguidas ao redor do MetLife Stadium, em East Rutherford, palco da final da Copa do Mundo de 2026, coberta in loco pela reportagem do Correio.
No Jogo 104, entre Argentina e Espanha, uma celebração esportiva convivia com detectores de metais, revistas de bolsas, rigor nos credenciamentos e presença ostensiva das forças de segurança.
O terrorismo não entrou fisicamente na arena, mas passou a influenciar de maneira definitiva tudo o que acontece dentro e fora dela. A reação inicial, em 2001, foi de suspensão. A NFL adiou toda a rodada seguinte e transferiu as partidas para o encerramento da temporada. A Major League Baseball (MLB) interrompeu a programação e empurrou a World Series para novembro.
Outras competições americanas precisaram rever calendários. O espaço aéreo estava fechado, famílias procuravam parentes e equipes de resgate trabalhavam nos escombros. A pergunta era mais profunda do que uma questão logística: fazia sentido jogar enquanto o país tentava compreender a dimensão da tragédia?
Para os atletas, a resposta inicial parecia óbvia. Mike Piazza, então astro do New York Mets, estava em Pittsburgh quando soube dos ataques. Anos mais tarde, recordaria aquela manhã como uma mistura de medo, raiva e desespero. Poucos dias depois, ele se transformaria em um dos maiores símbolos esportivos da reação de Nova York.
A NFL também viveu um conflito intenso sobre a possibilidade de manter os jogos. Vinny Testaverde, quarterback do New York Jets, manifestou-se contra a realização da rodada seguinte. Diante de um vestiário silencioso, perguntou: "O que estamos fazendo aqui?" Depois, deixou clara a posição aos dirigentes: "Não era hora de jogar futebol. [...] Sei que isso é mais importante do que o futebol agora." Havia pessoas próximas às equipes entre as vítimas, e muitos jogadores simplesmente não conseguiam imaginar uma volta imediata à rotina.
Para quem vivia em Nova York, a distância entre esporte e tragédia havia desaparecido literalmente diante dos olhos. Tiki Barber, running back do New York Giants, chegou ao centro de treinamento depois de enfrentar um trânsito caótico e encontrar o acesso habitual fechado. Ao alcançar o estádio, viu a fumaça na direção de Manhattan. "O World Trade Center, nós conseguíamos vê-lo do campo — estava soltando fumaça", recordaria. O World Trade Center fazia parte da paisagem da cidade. De repente, havia sido substituído por uma coluna de fumaça. O atleta estava a caminho de mais uma jornada profissional, mas o futebol havia se tornado secundário diante de uma cidade atingida no coração.
Champions League
O choque atravessou as fronteiras americanas. A Liga dos Campeões estava em andamento quando os atentados aconteceram. Algumas partidas haviam sido realizadas naquele 11 de setembro, mas os jogos previstos para o dia seguinte foram adiados. A Uefa suspendeu também os demais compromissos das competições da entidade naquela semana. Os oito jogos da Champions programados para 12 de setembro foram remarcados para 10 de outubro, em respeito às vítimas.
O futebol europeu compreendeu rapidamente a tragédia como um assunto global. Grandes eventos reuniam multidões, mobilizavam aeroportos e deslocavam delegações internacionais. A partir dali, a segurança de uma arena esportiva passaria a ser vista sob nova dimensão.
A volta aos estádios exigiu tempo e revelou outra função do esporte. Michael Strahan e outros jogadores do New York Giants participaram de iniciativas para ajudar socorristas e bombeiros. O uniforme deixou temporariamente de ser apenas uma ferramenta de trabalho. Em uma cidade traumatizada, visitar vítimas, mobilizar suprimentos e estar presente tornaram-se gestos tão importantes quanto uma vitória.
Retomada
Dez dias depois dos atentados, o esporte voltou a ocupar Nova York. Em 21 de setembro, o Shea Stadium recebeu New York Mets e Atlanta Braves. Mais de 41 mil pessoas estavam nas arquibancadas, entre socorristas, familiares de vítimas e torcedores. Todos tentavam recuperar a capacidade de se reunir. Os Mets perdiam por 2 x 1 na oitava entrada quando Mike Piazza entrou em cena. Acertou um home run de duas corridas e deu a vitória por 3 x 2 à equipe da cidade.
O Shea Stadium explodiu. Não era uma comemoração comum. Havia choro, abraços e uma descarga emocional que transformaria aquele lance em um dos momentos mais marcantes da história esportiva dos Estados Unidos. Anos depois, Piazza definiria a reação do estádio assim: "Foi uma incrível liberação de emoção. Ficou evidente que as pessoas simplesmente queriam comemorar alguma coisa."
O home run não reconstruiu as Torres Gêmeas, não devolveu vidas às famílias nem apagou o trauma. Mas, durante alguns minutos, ofereceu a milhares de nova-iorquinos algo impossível nos dias anteriores: uma razão para comemorar.
O beisebol assumiu um papel que ultrapassava as fronteiras esportivas. Mets e Yankees carregavam no uniforme o nome de uma cidade devastada. Cada partida passou a ter uma carga emocional inexplicável. O esporte transformou-se em ponto de encontro de uma população traumatizada. A pergunta deixou de ser apenas quando as competições voltariam. Passou a ser para que elas serviriam. A resposta estava nas arquibancadas. Milhares de pessoas precisavam voltar a se encontrar, cantar, torcer e acreditar, por algumas horas, que a vida poderia continuar.
Essa reconstrução também gerou consequências permanentes. Nenhuma foi tão visível quanto a transformação da relação entre patriotismo e esporte nos Estados Unidos. Bandeiras ganharam espaço nas arenas. Bombeiros, policiais, socorristas e militares passaram a ocupar o centro das cerimônias. O hino nacional adquiriu uma dimensão ainda mais carregada de simbolismo. Na Copa, era executado em todas as partidas nos EUA, inclusive nas partidas sem a seleção estadunidense. O fenômeno não nasceu exclusivamente em 11 de setembro de 2001, mas os atentados aceleraram e aprofundaram a associação entre os grandes eventos esportivos e as manifestações de identidade nacional.
Protocolos
A mudança mais duradoura talvez seja percebida antes mesmo de o torcedor chegar à arquibancada. Ela começa nas filas, nas barreiras e na revista de objetos. Antes de 2001, grandes eventos já exigiam cuidados especiais. Depois dos atentados, a segurança deixou de ser apenas uma responsabilidade operacional dos organizadores e passou a envolver uma rede cada vez mais complexa de autoridades locais e federais.
Estádios e arenas passaram a ser analisados como potenciais alvos. Um grande jogo transformou-se em uma operação capaz de mobilizar forças policiais, órgãos de inteligência e estruturas governamentais. O mesmo processo alcançou os megaeventos internacionais. Jogos Olímpicos, Copas do Mundo e grandes finais continentais passaram a incorporar definitivamente a ameaça terrorista aos protocolos de planejamento.
Segurança deixou de significar apenas impedir confrontos entre torcedores ou invasões de campo. Passou a envolver inteligência, controle aéreo, proteção de delegações, monitoramento de multidões e coordenação entre diferentes órgãos e países.
Última impressão
A Copa do Mundo de 2026 oferece um retrato eloquente dessa transformação. Vinte e cinco anos depois dos atentados, os Estados Unidos receberam novamente um dos maiores eventos do planeta. A competição, disputada também no Canadá e no México, exigiu uma estrutura de segurança proporcional à dimensão do maior Mundial da história. Não é possível atribuir cada protocolo diretamente ao 11 de setembro, mas seria impossível compreender a maneira como os Estados Unidos passaram a proteger grandes concentrações públicas sem considerar a experiência traumática de 2001.
Talvez essa seja a maior herança daquele dia para o esporte. Antes do 11 de setembro, era possível imaginar o estádio como um território separado da realidade, um lugar para escapar temporariamente da política, das guerras e das tragédias.
Depois dos atentados, essa ilusão tornou-se mais difícil de sustentar. Os conflitos passaram a ameaçar calendários. A segurança redefiniu a experiência do torcedor. E os atletas, em determinadas circunstâncias, passaram a carregar significados muito maiores do que aqueles definidos pelo resultado de uma partida.
Há uma imagem capaz de resumir essa transformação. Mike Piazza está no Shea Stadium,10 dias depois da destruição das Torres Gêmeas. Nova York ainda vive o luto. Os Mets estão perdendo. Então, Piazza acerta a bola. Para alguém que desconheça a história, é apenas um home run. Para os milhares de nova-iorquinos presentes no estádio — e para milhões que acompanhavam aquela noite —, era muito mais do que isso.
Durante alguns segundos, antes de a bola desaparecer sobre o campo, o esporte ofereceu a uma cidade devastada algo que nenhuma estatística seria capaz de medir: a possibilidade de voltar a respirar.
O esporte retornou depois do 11 de setembro. As ligas retomaram os campeonatos, os estádios voltaram a receber multidões e os atletas recuperaram suas rotinas.
A vida seguiu. Mas nunca exatamente da mesma maneira. Naquela terça-feira de 2001, o mundo descobriu que até o esporte podia parar. Quando a bola voltou a rolar, desvendou também que ela carregaria, para sempre, muito mais do que um jogo.










